Moniz Bandeira: "A crise afeta todos os países, inclusive o Brasil"


Para o cientista político e historiador Luiz Alberto Moniz Bandeira, as turbulências no mercado financeiro são consequência da crise econômica deflagrada em 2008. Professor titular aposentado da Universidade de Brasília (UnB) e autor do livro Formação do Império Americano, ele acaba de lançar a 3ª edição de Brasil Estados-Unidos: a rivalidade emergente e a 2ª edição de O milagre alemão e o desenvolvimento do Brasil (1949-2011). Segundo o professor, a tendência dos Estados Unidos é deixar de ser o centro do capitalismo para dar espaço a outras potências. Confira:

 

Nesta semana, houve um movimento global de queda das bolsas. No Brasil, a Bovespa registrou baixa de até sete pontos percentuais. Como o brasileiro pode interpretar esta movimentação do mercado financeiro?

 

R – Essa turbulência no mercado financeiro constituiu um desdobramento, a terceira etapa da crise econômica e financeira, deflagrada, nos Estados Unidos, com a explosão do mercado imobiliário, no 1º semestre de 2007, quando grandes corretoras, como Merrill Lynch e Lehman Brothers, suspenderam a venda de colaterais, e em julho do mesmo ano, bancos europeus registraram prejuízos com contratos baseados em hipotecas sub-prime. Em 2008 a crise espraiou-se a inúmeros bancos e, em 2010, atingiu os Estados mais débeis da União Européia, tal como Grécia, Portugal e Irlanda, ameaçamdo desestabilizar toda Eurozona e provocar uma crise sistêmica, dado à promiscuidade entre os bancos alemães, franceses e, também, americanos os com os Estados nacionais e outros bancos, mediante dívidas cruzadas. Se a Grécia e/ou Portugal deixasse de pagar a dívida, a crise propagar-se-ia e pode crescer como bola de neve. Porém a especulação continuou e continua desenfreada com a venda de títulos financeiros a descoberto nas bolsas de valores. O sistema financeiro internacional está praticamente livre, desregulado, sob o controle das grandes corporações, dos bancos e do complexo militar industrial do Estados Unidos e dos países mais industrializados da União Européia, que ganharam plena autonomia por cima dos Estados nacionais. Os Estados nacionais estão como reféns do sistema financeiro e Alemanha e a França vão proibir totalmente a venda de derivativos para cercear a especulação. E quase todos os países da Eurozona esgotaram sua margem de expansão monetária e fiscal, assim como os Estados Unidos, e não têm muitas condições deflexibilizar sua política monetária. A concessão de bail-out aos diversos bancos, para evitar que entrassem em bancarrota, elevou os déficits fiscais e de estoques de dívida pública de quase todos os Estados na União Européia. A dívida pública da Alemanha provavelmente já chegou a 78% do PIB; a da França alcançou 89% do PIB. E a da Grécia extrapolou 120%.

 

As suas análises alertam sobre o perigo de uma crise norte-americana há alguns anos. Quando os Estados Unidos começaram a construir este cenário de crise e quando ela se agravou?

 

R – Sim, em discurso pronunciado em 2006, em São Paulo, quando fui eleito pela UBE como Intelectual do ano 2005, por meu livro Formação do Império Americano, e recebi o Troféu Juca Pato. Adverti que a bolha financeira dos Estados Unidos iria vai estourar, mais dia menos dia, como previu, o Asian Development Bank em 28 de março de 2006, ao anunciar a possibilidade de aos seus membros no sentido de que se preparassem para a possibilidade de colapso do dólar, provocaria graves conseqüências para a economia mundial Também o financista George Soros afirmou que o estouro da bolha era inevitável e previu que ocorreria em 2007. O fato é que a economia capitalista mundial, cada vez mais globalizada, é um todo e não uma soma de economias nacionais. Se a bolsa dos Estados Unidos sofre profunda queda, a queda se reflete e abala, de um modo ou de outro, as bolsas de países da Ásia, União Européia e América Latina. Os Estados Unidos continuam a emitir dólares, sem lastro, para pagar a energia, commodities e manufaturas que importam, e os países que lhes vendem, tais como a Arábia Saudita, China, Brasil e outros, com os mesmos dólares sem lastro, compram bônus do Tesouro Americano. Em outras palavras, são os bancos centrais de outros países, inclusive o Brasil, que continuam a financiar o déficit na conta corrente do balanço de pagamentos dos Estados Unidos.

 

A influência dos Estados Unidos na economia mundial tende a diminuir?

 

R - Os Estados Unidos ainda são o pólo do sistema capitalista mundial, embora a tendência seja perder cada vez mais essa condição, com a emergência de outras potências. Estão chafurdados em dívidas, por diversos fatores, sobretudo porque produzem menos do que consomem.
Dependem de tudo, inclusive de capitais e financiamentos. Seu déficit comercial, em junho deste ano, 2011, aumentou para US$ 53,1 bilhões contra US$ 50,8 bilhões, em maio. E, em maio, o Departamento do Tesouro revelou que a dívida pública dos Estados Unidos havia alcançado o limite (ceiling) de endividamento, US$14,29 trilhões, permitido por lei, mas o governo poderia ainda funcionar com medidas extraordinária até 2 de agosto, se o Congresso não aprovasse a sua elevação. O impasse entre o presidente Barak Obama e o Partido Republicano somente foi superado, no último dia, a fim de que os Estados Unidos pudessem evitar o default, i. e., não dessem um calote, por não ter mais dinheiro e não poder tomar empréstimo para pagar suas dívidas, nem mesmo os funcionários e militares. O Congresso, no domingo, 31 de julho, aprovou em regime de urgência uma lei, autorizando o governo a tomar empréstimo até US$ 2,2 trillhões, aumentando o limite até cerca de US$ 15 trilhões e comprometendo o governo a cortar US$ 1 trilhão, em dez anos, bem como reduzir, no mesmo prazo, os gastos domésticos em US$ 917 bilhões e constituir uma comissão, com republicanos e democratas, para definir os cortes em mais US$ 1,2 trilhão até novembro. Isto sem aumentar os impostos dos ricos, cortados pelo presidente George W. Bush, para aumentar a receita. Assim, e presidente Obama perdeu o grau de liberdade na execução da política fiscal e a possibilidade de injetar recursos na economia através do Federal Reserve System (FED), o banco central dos Estados Unidos. Não sem motivos agência Standard & Poor"s rebaixou de AAA - a avaliação a mais elevada do ranking em 70 anos - para AA+ e previu a possibilidade de rebaixar ainda mais, dado que o acordo está aquém do necessário para estabilizar a dívida, a médio prazo, e o panorama, que se descortina é negativo. É muito difícil reduzir o déficit, quase impossível, sem cortar os gastos militares. E os Estados Unidos estão envolvidos em três ou quatro frentes de guerra, no Afeganistão, Paquistão, Iraque e Líbia, bem como, parcialmente, no Iêmen, e ainda mantém quase 1.000 bases nos mais diversos países, algumas sob a capa da OTAN. Calcula-se que, no ano fiscal de 2011, que termina em setembro, só os gastos com as guerras no Afeganistão e no Iraque cheguem a um custo de US$170,7 bilhões. Com a guerra na Líbia, sob o manto da OTAN, os gastos do Pentágono excederão US$ 750 milhões e provavelmente atinjam US$ 1 bilhão este ano.

 

Com esta desvalorização, o dólar pode deixar de ser a moeda de reserva internacional?

 

R - O dólar está estruturalmente debilitado pelos déficits fiscal e cambial e pela elevada dívida pública dos Estados Unidos. Paul Craig Roberts, ex-secretário-assistente do Departamento do Tesouro, no governo de Ronald Reagan (1981-1989), afirmou que a superpotência - os Estados Unidos - não estava em condições de financiar suas próprias operações domésticas, muito menos suas “injustificáveis” guerras, se não fosse a bondade dos estrangeiros, que lhe emprestam dinheiro sem perspectiva de receber o pagamento. E Joseph E. Stiglitz (Premio Nobel de Economia) estimou que o total dos custos dessas duas guerras, no Afeganistão e no Iraque, já havia alcançado US$ 2,7 trilhões, em termos estritamente orçamentários, e um total de custos econômicos da ordem de US$ 5 trilhões. A economia americana é corroída, em larga medida, pelo militarismo, alimentado pelos profundos interesses do complexo industrial-militar, que se alastram e se entrelaçam dentro de governo, quer seja republicano ou democrata, com propinas, suborno, pagamento de comissões aos que propiciam as encomendas, e contribuições para a campanha eleitoral dos partidos políticos. A indústria bélica, com toda a cadeia produtiva, constitui outra bolha. Mais dia menos dia deve estourar. O poderio militar dos Estados Unidos tem limites econômicos.

 

Neste caso, que outras moedas poderiam substituí-lo? E o ouro tem lugar neste mercado?

 

R – Não creio que uma só moeda vá substituir o dólar. É difícil prever o que ocorrerá. Há várias tendências, que se delineiam, entre as quais um pacote de moedas, em que entraria até o real.

 

O recente aumento na emissão de dólares praticado pelos Estados Unidos não teria deixado outros países mais dependentes da moeda americana na construção de reservas?

 

R – Não. A sustentabilidade dos déficits fiscal e comercial se inter-relacionam, daí porque denominados "déficits-gêmeos", depende de contínuo influxo de capitais estrangeiros, oriundos, sobretudo das inversões da China, comprando bônus do Tesouro dos Estados Unidos. Porém a China já reduziu até março o montante de suas reservas em dólares pelo quinto mês consecutivo, diversificando suas aplicações. As reservas da China superam o montante a US$ 3 trilhões. Atualmente, apenas US$ 1,145 trilhão estão investidos em bônus do Tesouro dos Estados Unidos, pouco mais de um terço do volume total.

 

O senhor comentou que este pacote de socorro aprovado pelos Estados Unidos não solucionará a crise estrutural de sua economia e do seu modelo consumista. Qual seria o caminho para a solução da crise?

 

R – Não sou nenhuma autoridade para oferecer solução. Sou apenas cientista político. Mas estudo e as analiso relações internacionais e os países, com um método interdisciplinar, que implica economia política, história e outras áreas correlatas da ciência e percebo que a crise dos Estados Unidos. Decorre de diversos fatores, entre os quais porque consomem (sobretudo energia) mais do que produzem, exportam plantas industriais para outros países, em busca de fatores mais baratos de produção, aumentando internamente o desemprego, e o governo não pode reduzir radicalmente os gastos militares, não por motivo de segurança e defesa, mas por poderoso motivo econômico. Tal medida levaria virtualmente ao colapso a economia de vários Estados americanos, sobretudo, no sunbelt (Texas, Missouri, Florida, Maryland e Virginia), onde funciona a maior parte das indústrias de material bélico e outras que empregam tecnologia intensiva de capital. A receita fiscal desses Estados depende, em larga medida, dos impostos pagos por tais empresas. Se elas suspendessem a produção, que é subsidiada pelas encomendas do Pentágono, os Estados entrariam em bancarrota e a taxa de desemprego no país saltaria de 9.1% para um percentual de dois dígitos muito maior. A maior ameaça que os Estados Unidos enfrentam não é nem militar nem o terrorismo. A maior ameaça que podem abatê-lo como potência é econômica: irresponsabilidade fiscal, descontrole dos gastos públicos, altos déficits orçamentários, contínuo déficit na balança comercial, alto endividamento externo líquido, corrupção com a promiscuidade entre indústria bélica e o Pentágono, recessão, inflação e desemprego, depressão do setor imobiliário e a inflação, que aumentou 1,3% até junho de 2011.

 

De que maneira toda esta crise afeta a economia brasileira? Por quê o país é tão dependente da economia norte-americana?

 

R – A crise afeta todos os países, inclusive o Brasil, que é atualmente o quinto maior credor dos Estados Unidos. É um dos cinco países que financiam sua dívida. Dados Tesouro americano mostram que, em dezembro de 2010, o Brasil detinha US$ 186,1 bilhões em títulos dos Estados Unidos, superado apenas pela China, com US$ 1,16 trilhão, Japão (US$ 882,3 bilhões), Reino Unido (US$ 272,1 bilhões) e países exportadores de petróleo, como a Arábia Saudita e a Venezuela, cujos investimentos somam US$ 211,9 bilhões. Esse é um risco muito grande. Mas o Brasil possui reservas no total de US$ 351 bilhões, ou 9,5% do PIB, e já não depende tanto do mercado americano, ao qual destinava, nos anos 1990, cerca de 20,35% de suas exportações, percentual este que caiu para entre 15% e 16% nos últimos anos. Atualmente o principal mercado do Brasil é a China.Somente no primeiro semestre deste ano, 17% das exportações brasileiras destinaram-se ao mercado chinês. O Brasil também exporta mais para os países em desenvolvimento, América Latina, África e Oriente Médio, do que para as potências industriais da Europa, também em crise. Se houvesse aceitado a área de livre comércio das Américas (ALCA), vinculando-se intimamente aos Estados Unidos, aí, sim, poderia ter um grave problema, como ocorreu com o México, que destina entre 80% e 90% de suas exportações e sofreu uma débâcle, sua economia desacelerou, a partir de 2007, e só cresceu 2,0%, em 2008, e 20,3%, em 2009, quando a maior recessão dos últimos 70 anos provocou uma retração do PIB, calculada em 8%. O Brasil, ao contrário, sofreu a crise, mas a economia cresceu 4,8%, em 2008, 3,7%, em 2009, e 7,5%, em 2010.

 

Na crise de 2008, o governo brasileiro estimulou o consumo interno para amenizar os efeitos da crise mundial. Agora, o governo lança medidas para desacelerar o consumo e tenta conter a inflação. Nesse contexto diferenciado em relação a 2008, o brasileiro sentirá com mais força os efeitos da crise nos outros países?

 

R – Há diversas formas de sofrer os reflexos da crise. É inevitável, embora a situação do Brasil esteja muito melhor do que em 2008. A valorização do real, como conseqüência da desvalorização dólar e do euro, é um problema gravíssimo, porque prejudica as exportações do Brasil e possibilita o aumento de suas importações.Porém só as autoridades econômicas do Brasil, que dispõem de todos os dados e previsões, podem responder a essa pergunta.







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